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Maryse Bastié: Uma mulher de coragem - P1
Autor: Eduardo A. S. A. Dias

Maryse Bastié: Uma mulher de coragem.

Eduardo Antônio Souto Alves Dias                             littledado2004@yahoo.com.br                                                                                        Natal, 13-07-2009

Introdução

Por meio deste artigo procuro homenagear esta brava aviadora francesa detentora de vários records e que faz parte da história da aviação em minha terra Natal, através de uma montagem utilizando um kit Caudron C.635 Simoun na escala 1/72 da Heller. Mostrarei um histórico sobre sua passagem por Natal-RN antes e depois da quebra do record da travessia do Atlântico Sul e após isso o processo da montagem do kit.

Histórico

Visita a Natal Antes da decisão de tentar quebrar o record da travessia do Atlântico Sul, Maryse Bastié teve uma breve passagem por Natal-RN como destaca um jornal da época A República.

Em Natal a aviadora Maryse Bastié

"Encontra-se nesta capital, desde a noite de segunda-feira, tendo chegado pelo hidroavião transatlântico Santos Dumont, a famosa aviadora francesa Maryse Bastié, detentora de vários records femininos.

Entre esses records destacam-se a permanência no ar, com 30 horas de duração e o de distância, tendo efetuado 3.000 quilômetros, com um aparelho munido de um motor de 40 c.v.

A senhorita Maryse Bastié foi uma das primeiras aviadoras que saltaram em pára-quedas.

A aviadora, cuja particularidade é de voar sempre sozinha, procede da França, para onde retornará na próxima segunda-feira, a bordo do Santos Dumont."

A República – Natal, 27-12-1935.

O Record

Um ano após a sua breve visita a Natal-RN, eis que tem sucesso a prova de sua determinação e bravura como mostra esta curta nota.

30-12-1936

Pousa em Natal, procedente de Dakar, a aviadora francesa Maryse Bastié, no avião Caudron Renault Simoun, monomotor, equipado com o motor de 220HP do Ministério do Ar da França. Ela fez a travessia do Atlântico sul em 12 horas e 5 minutos, superando o record de Joan Batten (13-11-1935), e recebeu a comenda de Oficial da Legião de Honra da França.

O jornal A República deu destaque a esse feito.

Maryse Bastié estabeleceu um record na travessia do Atlântico

A chegada, ontem, a Natal, da arrojada aviadora francesa

 

Como já havíamos informado, chegou, ontem, a Natal, a famosa aviadora francesa Maryse Bastié, que acaba de realizar, com pleno êxito, um raid aéreo entre Paris-Dakar-Natal.

Na última etapa do seu arriscado vôo, Dakar-Natal, a senhorita Maryse Bastié estabeleceu um expressivo record fazendo a travessia do Atlântico em 12 horas e 7 minutos.

A aviadora francesa pilotou um avião Caudron-Simoun, pertencente ao ministério do Ar da França.

Esse aparelho é dotado de um só motor Renault de 220 CV, não possuindo rádio, o que vem patentear a coragem e o sangue frio da famosa aviadora.

A partida de Maryse Bastié, de Dakar, verificou-se às 4h23min (hora brasileira), tendo chegado ao campo de Parnamirim precisamente às 16h30mim.

É essa a segunda vez que Natal hospeda a destemida aviadora francesa, detentora de vários records femininos, entre os quais avultam o de permanência no ar, com 30 horas de duração, e o assinalado, ontem, na travessia do Atlântico.

O fotografo João Alves apanhou vários flagrantes da chegada da senhorita Maryse Bastié ao campo Parnamirim.

A República – Natal, 31-12-1936.

Outras fotos da sua chegada.

Nesta foto ela sorri para o piloto Guerrero após a sua aterrissagem.

 

Nesta foto ela aparece sendo beijada pelo piloto Guerrero, que um ano mais tarde viria a desaparecer em um acidente de aviação no Marrocos.

 

Nesta foto aparece ela sendo recepcionada pelo pessoal da Air France.

 

Aqui aparece o pessoal da Air France pousando para foto na frente de seu Caudron.

Nesta foto aparece ela comemorando a sua vitória ao lado dos pilotos Lanata e Guerrero.

 

Aqui ela aparece diante de seu Caudron – Simoun com motor Renault de 240 C.V.

O Diário

O melhor de tudo foi ter acesso a seu diário onde ela narra todo o processo da viagem, a sua alegria na chegada, sua estadia em Natal, o batismo de seu avião em homenagem a seu grande amigo Jean Mermoz que também faz parte da história da aviação em Natal e sua despedida desta cidade.

Dakar – Natal

 (...) Há sete horas que eu vôo, quando de repente, tenho a alegria de rever a água!... No horizonte azul!...

Depois da primeira prova que foi para mim a decolagem, obtive pleno êxito com a segunda: o terrível Pot au Noir. Agora eu estava certa de chegar a Natal.

Portanto, eu não estou ainda completamente no fim de minhas possibilidades. Antes de minha partida, o chefe de rádio me havia dito que o navio campana se encontraria ás primeiras horas da tarde de quarta-feira, nas proximidades do rochedo de São Paulo. Eu distingo, num instante, à minha direita, bem perto de mim... Essa aparição me deixa agitada, pois ela me traz a certeza de que não saí da minha rota. Fortalecida com essa certeza, e evitando sobrevoar o navio, o que teria me distanciado, prossigo na minha rota.

A viagem continua a se arrastar monótona... Mantenho os olhos fixos no compasso... De repente, tenho a sensação de distinguir um barco de pesca que segue na mesma direção que eu. Haviam-me assegurado que eu não encontraria outros navios na minha rota.

Confesso que tive alguns momentos de perplexidade. Por acaso não estou no caminho certo?... Meu compasso indica exatamente meu rumo: nenhum defeito nos instrumentos é admissível. Mas há certas ocasiões que se duvida de tudo, até mesmo do evidente.

No entanto, eu escuto a voz da razão e da convicção interior que me afirmam que meus instrumentos estão corretos: portanto, eu prossigo sem me inquietar com a presença insólita do barco.

Às 9h50min tive que mudar de sentido, desviando de 15 graus a rota do avião. Naquele momento, deveria ter visto Fernando de Noronha. Devo ter passado bem perto, mas não consegui distingui-la. O tanque suplementar que havia colocado em meu aparelho me roubava toda a visibilidade à direita.

Eu vou em frente, na direção oeste. Diante de mim, o sol me deslumbra: vejo somente na vertical e um pouco obliquamente á esquerda. Tudo isso faz parecer longos os últimos 100 quilômetros: à vista de Fernando de Noronha, eu teria certamente ganho um suplemento de confiança...

Um vento do sudeste bastante forte me sacode desagradavelmente. O tempo está belo, apesar de alguns cúmulos que deslizam a trezentos metros.

Depois de um momento, parece-me ver no horizonte uma linha branca. Segundo meu tempo de vôo, eu suspeito estar próxima da costa, e não me surpreendo de descobri-la. Nem muito admirada, nem muito feliz: minha meta é Natal.

A costa está cada vez mais próxima. Eu calculo se devo ficar no mar, sem me aproximar, prosseguindo sempre minha rota, ou qual rumo devo tomar. Enquanto esquadrinho todo o horizonte com os olhos, distingo um grande rio que faz meu coração dar o primeiro salto, pois ele me prova que eu vou ultrapassar Natal daqui a alguns quilômetros...

Antes de tudo, eu esperava um ardil comigo mesma e fingia e interessar... Com medo de uma desilusão. Alguns minutos mais tarde, sobrevôo Natal... E então, eu tenho verdadeiramente uma grande, uma embriagante sensação de vitória... Quando compreendo que cheguei na hora certa.

Há um ano eu havia me dito: farei o percurso em 12 horas...

Ora, eu fiz em 11 horas e 50 minutos... Disseram ter sido feito em 12 horas e 5 minutos.

Eis o porquê: o campo de pouso era bastante afastado da cidade e o sol, que me tocava os olhos e me ofuscava, me fez perder tempo. Eu tive dificuldade de encontrar o aeródromo, mas, depois de 12 horas e 5 minutos de vôo, os motores se detinham diante dos hangares...

No aeroporto, além das autoridades brasileiras, foram esperar-me todos os colegas da Air France e a tripulação do Sud.

Quando saltei do avião, minha primeira palavra foi para Guerrero.

Antes de sua partida para Dakar, ele me havia dito: “Se você não chegar na hora e se eu ficar de cabelos brancos por sua causa, não lhe perdoarei jamais.”

Dê-me 12 horas”, lhe havia respondido... Com um sorriso incontido eu lhe falo agora: “Como você vê eu sou sempre pontual...”

Ele não podia me responder tamanha era sua emoção... Ele ria... Em todos os rostos, noto a mesma emoção, essa alegria veemente e profunda. Nesse instante, eu senti o quanto eles haviam se inquietados por mim e que peso de minha chegada tirava de seus corações... E, sinceramente, isso me compensava de todos os esforços.

Naturalmente, para me recepcionar, eles me levaram flores. Digo naturalmente, mais isso não é tão natural, afinal de contas... Pois se sabe que em Natal as flores são raras.

Tomando conhecimento de minha viagem, eles haviam procurado por toda a parte para me oferecer esse feixe flori coroado e cada habitante havia acrescentado a sua contribuição.

E depois, bebemos champanhe... Em profusão... O champanhe da França que todos os pilotos guardavam para o réveillon do ano novo, eles o trazem para festejar o que era para eles, não somente a vitória de Maryse, mas, também a vitória francesa.

Isso eu senti de tal maneira que fiquei bastante comovida. E foi por minha causa que, na noite de 31 de dezembro, não houve champanhe para celebrar o ano novo.

No dia seguinte, os telegramas chegavam... Telegramas que abalavam a calma de Natal. Eu estava pasmada de ver que essa viagem, que me havia parecido fatível, desencadeasse semelhante rajada de admiração e simpatia.

Em Natal, eu repousei alguns dias numa calma deliciosa, enquanto aguardava as instruções do Ministro para continuar a minha viagem a Buenos Aires. Foi um tempo que eu não poderei esquecer jamais, tanto ele foi marcado pela quietude, pelo bom-humor e pelo coleguismo. Não havia hotel em Natal e eu fui recebida na pensão familiar da Air France, no meio dessa enorme família fraternal dos pilotos que se esforçavam por me fazer mimos e me divertir.

Desde o primeiro dia, eles souberam cercar-me de uma alegra esfuziante, de felicidade, de constantes testemunhos delicados de amizade. Foi Nery, homem das 56 travessias, um dos mais famosos radio-pilotos transatlânticos, que, na noite de minha chegada, quando um deles observava que éramos 13 à mesa, fez essa bela afirmação: “Não há nenhum problema, uma vez que Maryse chegou”.

Foi Dedier, um dos mais velhos e melhores pilotos dos Sud, que me afirmou no dia de minha aterrissagem: “Maryse, eu tinha certeza de que você chegaria, eu havia calçado meus sapatos às avessas, hoje de manhã...” Na segunda-feira seguinte, tendo recebido a autorização de prosseguir até Buenos Aires, decidi retomar a viagem.

Antes, no entanto, batizei meu avião de Jean Mermoz. Uma grande amiga de aviação, senhorita Suzanne Deutch de La Meurthe, que tanto fez pelas Asas Francesas e que me honra com sua amizade, já me havia sugerido isso antes da partida...

Naquele momento, eu hesitei em fazê-lo. Nem meu avião nem eu, então, éramos dignos de um nome tão belo: era preciso vencer para merecê-lo.

Em Natal, nós tínhamos triunfado e era-me permitido ligar a nossa vitória o nome do grande piloto que me havia amparado nos projetos e que me havia honrado com sua confiança.

Além disso, o nome de Jean Mermoz, em presença da gente brasileira, é cercado de um imenso prestígio: É preciso ver com que respeito, com que fervor ele é pronunciado... Para ir de Natal, ao campo de aviação, é uma verdadeira expedição.

Eu segui para lá com a tripulação que devia fazer o trajeto Natal-Dakar... Eu os olhei decolar e, por minha vez, pus-me a caminho na direção do Rio de Janeiro. (...)

Maryse Bastié


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